UM COPO D'ÁGUA PARA O TIO PEPE, 2003
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Elida Tessler Elida Tessler Elida Tessler Elida Tessler Elida Tessler Elida Tessler Elida Tessler Elida Tessler Elida Tessler Elida Tessler

Apresentada na exposição coletiva: Microlições de coisas. Centro de Estudos Murilo Mendes. Juiz de Fora, MG. Curadoria de Valéria Faria Cristofaro.
2 copos de vidro. 3 espetos para papel. 3 cadernetas de anotações sobre prateleira. Dimensões da prateleira: 60 cm de largura x 15 cm de profundidade // objetos com altura máxima de 15,5 cm.

O trabalho manteve como referência o poema de Murilo Mendes O COPO, enviado à artista pela curadora, junto com o projeto da exposição. Este trabalho teve a colaboração de Graciela Distéfano, Ticio Escobar e Felix Suazo

“O copo é um recipiente por excelência. Sua potencialidade poética foi elevada ao tomar contato com uma lenda que faz parte do universo mítico da cidade de Mendoza (Argentina), onde este trabalho foi inicialmente concebido, enquanto eu participava do II Coloquio Internacional de Arte Latinoamericano, em novembro DE 2004.Tomei conhecimento da lenda após passar 24 horas aguardando notícias sobre minha mala perdida durante as conexões desta viagem, isto é: Porto Alegre – Buenos Aires – Mendoza. Após quase desistir dos trâmites burocráticos e ineficientes, uma das coordenadoras do Colóquio, Graciela Distéfano pediu-me paciência, dizendo ter que ir a cozinha de sua casa para realizar algo que faria com que a mala chegasse até as minhas mãos naquela noite. Não poderia contar nada antes de ter achado o que eu já estava considerando irreversivelmente perdido.
Passados poucos minutos, nos dirgimos ao aeroporto, para buscar um dos palestrantes do Colóquio, Ticio Escobar, vindo do Paraguai.
Entre uma valise e outra que giravam na esteira da sala de desembarque, avistei minha mala vermelha, a qual busquei como qualquer outro passageiro que estaria chegando naquele vôo.

Transcrevo, do caderno de anotações que ofereci a Graciela Distéfano, a lenda que ela contou-me.

“O copo e Tio Pepe

Isto é Mendoza e sua lenda urbana. Dizem que Tio Pepe era um adorável jardineiro, muito honesto, pois tudo o que porventura tivesse caído em seu jardim e ali ficasse perdido, ele recolhia e tentava entregá-lo ao seu dono. Comentam que um dia Tio Pepe não foi trabalhar, e no outro dia também não. Quando foram bater à porta de sua humilde casa, ninguém respondia, e tiveram que forçá-la. Encontraram Tio Pepe morto. Dizem que o médico que assinou o seu óbito, exclamou: “Que pena! Se alguém pudesse ter alcançado um copo d’água para Tio Pepe, ele não teria morrido. Tio Pepe morreu desidratado. Algum dia, alguém que extraviou alguma coisa, teve a idéia de colocar um copo d’água para Tio Pepe, e o objeto apareceu. A lenda foi correndo e o mito foi se formando e se expandindo.

A eficácia desta prática foi comprovada por Elida que encontrou a sua mala.

Algo para não esquecer: Quando encontras a coisa perdida DERRAME ÁGUA, ou seja, DERRAME O COPO D’ÁGUA E AGRADECE AO TIO PEPE PELA SUA BONDADE.”

Ticio Escobar, crítico de arte paraguaio, estava presente no momento em que Graciela narrou a lenda. Impressionado, contou uma de suas histórias com carteira de dinheiro e documentos perdida em São Paulo. Ofereci-lhe uma caderneta de notas para que transcrevesse sua narração, desejando inserí-la no trabalho. O que recebi foram “Dez apontamentos sobre a perda”. Felix Suazo, crítico de arte venezuelano, também participante do Colóquio, acompanhou-me em todas as buscas anteriores, tendo presenciado meus momentos de aflição. Ofereci a ele também uma caderneta de anotações, da qual ele preencheu 11 páginas com escritos sobre a perda de modo geral, e especificamente sobre perder a cabeça, perder a memória, perder o sono e perder tempo, incluindo alguns desenhos.

Fazem parte deste trabalho as três cadernetas de anotações, adquiridas em Mendoza, na casa de uma senhora que tinha o hábito de guardar coisas, e que após sua morte, seu herdeiro trata de vender tudo. Constitui também o trabalho, três espetos para papel, como elemento de sustentação para as referidas cadernetas, e dois copos d’água, sendo que o pequeno está dentro do maior. Os copos devem ser mantidos cheios d’água, a ponto de transbordar. A invisibilidade do conteúdo interessa-me como elemento poético do trabalho.

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